06/07/2009

Rápido de Itajaí


Sábado, 4 de julho foi realizada a 4a etapa do Circuito catarinense de xadrez rápido. Essa é uma modalidade que eu nunca fui muito fã (certamente pela falta de habilidade em jogar partidas rápidas). Para mim é como fast food: é gostoso na hora mas falta substância.

De qualquer forma muitas pérolas se perdem nesses torneios pela absoluta falta de registro. Ao terminar o torneio eu aconselho a quem conseguir que tente reproduzir suas partidas: com certeza vai encontrar muitas coisas boas pelo caminho.

Por outro lado muita gente que não tem tempo para jogar um torneio em 2 ou 3 dias tem oportunidade de participar de uma competição graças a esse formato que dura apenas um dia. É isso que faz dessa a modalidade mais popular.

O torneio em Itajaí, graças a uma razoável premiação (em comparação ao que temos hoje no Brasil para o xadrez), contou com uma seleta participação em seu grupo principal, sendo a principal a do MI Rodrigo Disconzi (que tem um excepcional blog sobre xadrez - quem não conhece deve visitar). Além dele havia o Charles Gauche, Haroldo Cunha, Alfeu Varella, os Bambino, e vários outros catarinenses que tornaram a disputa bastante acirrada.

O local foi o Clube Itamirim, na entrada de Itajaí. Local muito bonito, com um salão gigantesco que comportava com facilidade as mais de 200 pessoas que lá estavam. Não posso deixar de destacar que as mesas (redondas com 1,2 m de diâmetro) criavam uma dificuldade adicional às partidas: era mais fácil dar mate no meio do tabuleiro que na oitava fila (principalmente para quem tinha braços curtos).

A organização foi bastante eficiente no cumprimento do cronograma do torneio, que começou e terminou sem atraso. Parabéns à organização encabeçada pelo Kaiser.

Novamente faço um registro a respeito da divulgação: nesta época de internet (que é o principal veículo de propagação de notícias de xadrez) não é admissível que uma competição importante não tenha seus resultados publicados ao seu término. Imaginem um torneio de futebol em que o resultado de domingo só apareça na quarta-feira. Não precisa vir com detalhes, mas pelo menos trazer os principais resultados.

Seguem algumas de minhas partidas (que eu consegui lembrar), que podem ter algumas falhas na ordem dos lance mas que ainda assim achei interessantes.













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29/06/2009

Bom senso, apenas bom senso.

Estes dias eu estava dissertando sobre análise em xadrez com uma aluna recente mas muito talentosa e um ex-aluno que adora xadrez.

De repente comecei a mostrar uma partida minha enquanto a analisava da mesma forma que costumo fazer com as partidas de qualquer aluno meu e resolvi tratá-la com o mesmo rigor, mas sem auxílio do computador: apenas levando em conta os princípios básicos que a gente ensina e gosta de cobrar... O resultado foi assustador, porém muito instrutivo.

A partida foi jogada na última rodada do Torneio Internacional da Amizade, em Agosto de 2008, contra o paranaense Átila Piekarski .

Ei-la (os comentários, bastante ácidos, podem ser acompanhados ao longo da partida, no próprio diagrama):


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Depois disso eles me perguntaram se eu ira treinar essa variante para a próxima competição. E a resposta, como não poderia deixar de ser, foi:

"Depois de analisar essa partida com vocês eu sou obrigado, com um nó no coração, a nunca mais jogar essa variante"

18/05/2009

Longa jornada noite adentro...


Talvez por baixo da minha declarada paixão pela democracia exista uma tênue admiração pela monarquia, ou então pode ser a minha ojeriza pelas injustiças, mas, o fato é que eu tenho uma enorme simpatia pelas manobras feitas com o Rei.

Quase sempre que alguém fala sobre o valor relativo das peças deixa o Rei de lado , como se fosse uma boneca de porcelana que se sair fora da redoma corre o risco de quebrar. Alguns professores até se recusam a avaliar a força do Rei sob o argumento que ele não pode ser trocado por outra peça. E não é disso que estamos falando. O que interessa é avaliar o potencial agressivo de um Rei comparado com outras peças.

E, na verdade, o Rei é uma peça extremamente forte, principalmente a curta distância. Enquanto o Rei ataca 8 casas vizinhas a ele, o Bispo ou a Torre só atacam 4.

Nesta partida, depois de demostrar uma tremenda insegurança em um final de cavalos e apurar-me no tempo (apesar de usar o relógio digital com incremento de 30s por lance) consegui, graças a uma extraordinária manobra de Rei a partir do lance 38. ...Rd6, e com pouco minutos no relógio, entrar em um final de Rei e Dama contra Rei, Dama e Peão que eu sabia empatado desde que mantivesse meu Rei em a1, a2 para não dar chances às brancas de trocarem as damas.

Essa manobra de Rei é o que motivou esse post. O Rei dá um a enorme volta no tabuleiro para capturar dois peões em ala opostas de forma que as pretas também conseguem coroar seu peão. Vale à pena olhar isso.

Tudo isso funcionou bem até que o Herman Cláudius, meu adversário, percebeu e advertiu o Juiz que apesar de eu apertar o relógio, meu tempo não parou de funcionar. E eu saí de 4 min para menos de 1 min. Apesar disso o juiz me deixou com puco mais de 1 min.

No finalzinho, com pouco tempo e cansado, depois de mais de 5 horas de partida, cometi o erro fatal fatal e permiti a troca de Damas.



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Atendendo à sugestão (excelente) do André Capiberibe segue a partida do Short x Timman



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10/05/2009

Vamos ganhar dos MI antes que virem GMI

No último post comentei como é difícil ganhar de um GMI (Grande Mestre Internacional). Porém, algo que sempre me chamou a atenção é o salto de qualidade que um jogador dá ao conquistar um desses títulos (MI ou GMI).

Ontem ele era aquele seu amigo de quem você às vezes perdia e às vezes ganhava. De repente ele conquista o título e pronto: você vira freguês do sujeito.

Que estranho mecanismo faz com que a compreensão do jogo melhore tanto. Parece que o título é um catalizador intelectual. Ou pode ser apenas uma falsa impressão. A proximidade faz com que não percebamos o quanto o(a) individuo(a) trabalhou para conquistar o laurel.

Seja lá como for, é melhor garantir uma vaga na História. E quando alguem no clube comentar sobre aquele (a) GM que já está entre os 20 melhores do mundo, você, como quem não quer nada, diz:

"é, eu já ganhei dele".


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23/04/2009

É duro vencer um GM

Qualquer um que já tenha enfrentado um GMI sabe a dificuldade que é vencer esses caras . Eles nunca desistem, têm uma quantidade enorme de coelhos na cartola, não têm pena da gente... e jogam muito bem. Em toda a minha carreira já enfrentei vários GMs, mas só logrei ganhar de poucos: Sunyê, Andrés Rodrigues, Gerardo Barbero, são os que me vem à mente. Às vezes conseguimos posições muito boas, quase ganhas até que cometemos algum tipo de erro que permitem a recuperação. E eles não deixam escapar.

A partida a seguir eu ganhei do Andrés Rodrigues no Torneio válido para norma de MI em Balneário Camboriú, durante o Pan Americano Juvenil. Foi na primeira rodada, o que me deu bastante ânimo. No segundo turno do torneio voltei a ficar com uma posição ganha e não só não encontrei o arremate como deixei ele virar a partida.



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12/04/2009

Trigêmeos !

Na etapa do Rápido Catarinense em Penha eu ganhei uma partida de forma bastante rápida do Lucas Augustin. É um linha da vienense, bastante aguda, em que o erro acontece com muita facilidade, o que provoca essas vitórias rápidas.

Após a partida eu comentei com ele que já tinha ganho pelo menos mais duas partidas em torneio importantes nessa variante. Uma vez contra o Alfeu (Lages) na final do 52 Catarinense Absoluto 2006 e outra contra o MI argentino Rodolfo Garbarino no Najdorf Festival Open, Buenos Aires 1998.

Por serem partidas bem interessantes com idéias parecidas resolvi publicar as três.
Obs: a partida contra o Alfeu foi para o ping, por isso não tenho os últimos lances.



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06/04/2009

Aberto de Penha - abril 2009


Vitória suada.

Dias 4 e 5 de abril fui jogar a 1a etapa do circuito catarinense de xadrez rápido- 61 min na cidade de Penha em SC. O torneio foi jogado na bonita Pousada Vila D'Itália, cujo feliz proprietário é o meu velho conhecido Jairo Cordiolli, filho do grande Lourenço Cordiolli. Pai e filho disputaram o torneio.

Ganhar um torneio que tem a participação do Charles Gauche (Blumenau) e do Haroldo Cunha(Joinville), dois eméritos ganhadores de torneios abertos, é algo para se vangloriar.

Depois de vários apuros de tempo, cheguei na última rodada na seguinte situação: Haroldo em primeiro com 5 em 5, eu em segundo com 4,5 em 5, e um monte de gente com 4 em 5. Para ganhar o torneio eu tinha que vencer. De pretas. O empate dava o título para o Haroldo.

Segue a partida:
Haroldo Cunha 0 x 1 Silvio C Pereira
6a rod




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31/03/2009

Arquivo X



Algumas partidas, de uma hora para outra, desapareceram do blog. E deixaram um rastro esquisito. Acontece que o www.chesspublisher.com, onde ficavam hospedadas aquelas partidas, saiu do ar por tempo indeterminado sem dar muita satisfação. E levou com ele todas as partidas.
É uma pena pois era um programinha muito prático para postar partidas com comentários.
Aguardei um tempo pra ver se voltava mas creio que vou ter de substituir partidas usando outra ferramenta.
Que os meus leitores desculpem esse transtorno.

20/03/2009

Heath Ledger: o Coringa do Xadrez


The Queen's Gambit
Walter Tevis (The Man who Fell to Earth, The Hustler e The Color of Money)
1983

The Queen's Gambit (ainda não tem tradução em português) trata da história de uma garota americana, órfã, que aprende a jogar xadrez, e, lutando contra todos os preconceitos, vai galgando todos os estágios de excelência no jogo, até chegar ao Olimpo, que é o patamar em que se encontram os Grandes Mestres soviéticos.

Aparece inclusive um forte grande mestre brasileiro, que, no entanto, está longe de ser um grande entre os grandes. O embate final, na decisão do torneio entre ela e o russo, campeão mundial, é o momento culminante do livro.

O romance, porém, é muito sobre os relacionamentos (ou falta de) da personagem. Por um lado ela adquire independência financeira com as vitórias nos torneios abertos. Por outro, a dificuldade em encontrar amigos ou companhias que partilhem da mesma paixão pelo jogo.

Junto a isso, a descoberta de jogadores de um nível muito mais alto - os jogadores da escola soviética de xadrez - do que ela costumava até então enfrentar. O primeiro contato com o russo, então campeão mundial, é, para dizer o mínimo, extremamente instrutivo.

Lembremos que até meados de 1980 o xadrez soviético dominava completamente o mundo. Aí então ela descobre que só o talento não é suficiente. Somente estudo sério e prolongado pode dar-lhe alguma chance de jogar de igual para igual com essa gente.

Ela consegue realizar essa etapa com a ajuda do jovem campeão americano (antes dela) que ao mesmo tempo torna-se seu melhor amigo e amante. Não namorado.

Outro aspecto bem interessante do livro é a sua (dela) luta contra as drogas (os tranquilizantes e a bebida).

Em alguns momentos, a descrição das partidas durante os torneios torna-se empolgante, mesmo para quem não joga xadrez. A forma como o autor descreve seus pensamentos, durante as partidas, de como ela supera alguns erros se obrigando a concentrar-se é, para quem já passou por isso, um deleite.

Infelizmente o livro ainda não tem tradução em português (olha aí, Garcez!) e portanto vai ficar restrito a quem dominar o inglês, a menos que...

A menos que o cinema resolva o nosso problema, e aí vêm as coincidências:

Um roteirista , Allan Scott, pseudônimo de Allan Shiach, que adquiriu os direitos do livro em 1992, estava à espera de um diretor que se interessasse em filmá-lo. Até Bernardo Bertolucci mostrou interesse mas, depois de alguns meses, acabou sendo atraído para outros trabalhos.

Então surgiu Heath Ledger. Para quem não se lembra, ele foi um dos cowboys de Brokeback Montain. Se ainda não deu pra refrescar a memória, ele foi o Coringa no último Batman (The Dark Knight), que lhe deu um Oscar póstumo. Em 2007 e 2008 Allan e Ledger estavam trabalhando juntos no que iria ser a estréia de Ledger como diretor.

Para fazer Beth Harmon, a menina prodígio, ninguém menos que a nova estrela Ellen Page (Juno). Ledger, segundo consta, havia sido um forte jogador e tinha planos de tornar-se Grande Mestre (entretanto não consegui encontrar nos arquivos da FIDE nenhum jogador com esse nome e perfil). Isso já explicaria o seu entusiasmo.

Infelizmente, assim como a personagem do livro, Ledger também era viciado em drogas com receita médica, porém, ao contrário daquela, não escapou com vida após uma combinação de drogas e álcool.

Agora temos que esperar a poeira assentar até que The Queen's Gambit seja finalmente transposto para o cinema.

09/03/2009

Sentimento e cálculo

O Everaldo Matsuura mostrou em seu blog como é fácil a gente ser traído pela sensibilidade quando nos deparamos com posições familiares, principalmente quando envolvem sacrifícios, e deixamos de lado, por auto-confiança, falta de tempo, ou mesmo preguiça, o cálculo das variantes.

As posições seguintes aconteceram em um torneio de xadrez rápido (16min por jogador) realizado neste último final de semana aqui em Joinville.

Na primeira partida, contra o Lucio Amorim, jogador extremamente tático, cometi o erro bastante comum de buscar a glória em vez da vitória: numa posição em que eu tinha uma grande vantagem na abertura resolvi sacrificar a Dama, sem ter tempo suficiente para confirmar a correção das principais linhas. O simples 15.Dg3 já daria vantagem suficiente para ganhar a partida. Entretanto, como resistir a sacrificar a Dama? Além disso um lance antes a possibilidade de um bonito mate caso, após 14. fxe5, o cavalo fosse para g8 seguiria 15. Cxe6 fxe6 16.Bg6+ Rd8 17.Df8#!, foi decisivo. Porém o sacrifício envolvia outras peças além de obedecer a uma ordem correta. E logo no segundo lance havia um xeque intermediário em f4 que o Lucio não deixou passar e definiu a partida.






A segunda partida foi contra a Amanda. Ela já evitou alguns erros do Lucio , não permitindo e5 e chegamos a uma posição conhecida da siciliana Najdorf em que é possível o sacrifício do cavalo em d5. Ou não? Neste caso, quem se atrapalhou com o tempo foi ela já que não é fácil achar os lances de defesa corretos com pouco tempo. O fato é que ela permitiu que o sacrifício funcionasse até que de repente surgiu a possibilidade de ganhar rápido e bonito no lance 17.Txe6. O lance que ganha sem problemas é 17. Cxg7+ e depois Tx e6. Eu vi, ela viu, a torcida inteira do Corinthians viu. Só que eu analisei rápido e achei que o outro era bem mais bonito e levava a um mate claro.

Qual não foi a minha surpresa quando no lance 19 ela não tomou meu cavalo e jogou Rf8. E agora? Cadê o mate? A posição ainda deve estar ganha mas já não era aquela que eu esperava. Felizmente para mim consegui ganhar logo em seguida.





Por essas e outras é importante treinar o cálculo e manter o sangue frio. Muitas vezes fazer como Capablanca. Não se deixar atrair por outras linhas de ganho quando aquela que voce traçou está funcionando perfeitamente. Mesmo que demore um pouco mais.